Nessa cidade de ruas estreitas,
De ruas largas,
Enladeiradas
Deixo pegadas que ninguém vê
Às vezes me perco na cidade
Só pra me encontrar
Só pra arriscar te ver
E as batidas de alguns tambores
No coração...
Quero colocar a cidade em mim
Nunca mais me senti assim
Esse deserto
Mesmo sem você por perto
Já consegui sobreviver
Eu sei que posso achar
Badalação e gente por aí
Mas hoje escolhi ficar comigo
Na minha calçada
Na minha cidade desabitada.
[Escrito em Abril de 2003]
sábado, setembro 16, 2006
sexta-feira, setembro 15, 2006
Felicidade
Mergulhou no mar para sentir-se mais livre,
E sucumbiu!
Primeiro, afogaram-se os sonhos,
Depois as pequenas mágoas,
Como cacos de vidro, sucumbiram as lembranças
Até faltar-lhe de todo o ar.
O mar parecia curvar-se para receber mais uma vida
Que já não era tão mais viva assim
Ondas quebravam na praia
Levando e despejando na areia as sobras de um domingo de sol
Plásticos, garrafas e palitos juntavam-se ao corpo sugado pelas águas
E o vento dançava soprando a rotineira canção.
Felicidade é afogar-se de tão livre
E morar pra sempre na imensidão do mar...
E sucumbiu!
Primeiro, afogaram-se os sonhos,
Depois as pequenas mágoas,
Como cacos de vidro, sucumbiram as lembranças
Até faltar-lhe de todo o ar.
O mar parecia curvar-se para receber mais uma vida
Que já não era tão mais viva assim
Ondas quebravam na praia
Levando e despejando na areia as sobras de um domingo de sol
Plásticos, garrafas e palitos juntavam-se ao corpo sugado pelas águas
E o vento dançava soprando a rotineira canção.
Felicidade é afogar-se de tão livre
E morar pra sempre na imensidão do mar...
quarta-feira, setembro 13, 2006
A pedido de Deby, e em homenagem a Sara...
O vendedor de palavras
Vende-se três linhas preenchidas com palavras
Palavras doces, suaves, até amargas
Sabe-se lá o que é preciso ouvir...
Segue em anexo sorrisos impressos
Olhares congelados, sabores e excessos.
Três linhas igualmente espaçadas
Para traduzir silêncios no pequeno vão
Vende-se palavras coloridas
Para quem precisa derramar a seiva do coração
Vende-se três linhas preenchidas com palavras
Palavras doces, suaves, até amargas
Sabe-se lá o que é preciso ouvir...
Segue em anexo sorrisos impressos
Olhares congelados, sabores e excessos.
Três linhas igualmente espaçadas
Para traduzir silêncios no pequeno vão
Vende-se palavras coloridas
Para quem precisa derramar a seiva do coração
segunda-feira, setembro 11, 2006
segunda-feira, setembro 04, 2006
Pôr-do-sol
Hoje eu não quero dormir sem ver o sol se pôr
Vou sair por essas ruas engarrafadas
Carros, buzinas, gente apressada
Faróis
Parece que a cidade mudou
Mas eu nunca amanheço igual
Já senti medo de tudo quase
E a sensação de que partia e ficava
Em cada esquina
Em cada vão
Às vezes perdida na imensidão
Perdida num silêncio em que se ousa apenas respirar
Equilibrando gritos roucos
Desejos loucos
Na velocidade das horas que não me pertencem
Hoje eu preciso ver o sol
Ver a bola de fogo ser engolida pelo mar
Antes de deixar a rotina me cegar.
Vou sair por essas ruas engarrafadas
Carros, buzinas, gente apressada
Faróis
Parece que a cidade mudou
Mas eu nunca amanheço igual
Já senti medo de tudo quase
E a sensação de que partia e ficava
Em cada esquina
Em cada vão
Às vezes perdida na imensidão
Perdida num silêncio em que se ousa apenas respirar
Equilibrando gritos roucos
Desejos loucos
Na velocidade das horas que não me pertencem
Hoje eu preciso ver o sol
Ver a bola de fogo ser engolida pelo mar
Antes de deixar a rotina me cegar.
segunda-feira, agosto 21, 2006
...E derramou-se em delicadeza, que exalava o perfume de bromélias azuis
A calçada estremeceu com seus passos firmes,
Firmes de uma delicadeza que fazia confundir gravidade com leveza
Era a delicadeza áspera de um sorriso opaco,
Com textura de sonho que não se recorda mais
Derramou-se intermitente por não caber mais em si
Ocupando com fluxo intenso os paralelepípados,
Os olhos alheios,
As correntes de vento...
A calçada estremeceu com seus passos firmes,
Firmes de uma delicadeza que fazia confundir gravidade com leveza
Era a delicadeza áspera de um sorriso opaco,
Com textura de sonho que não se recorda mais
Derramou-se intermitente por não caber mais em si
Ocupando com fluxo intenso os paralelepípados,
Os olhos alheios,
As correntes de vento...
quarta-feira, agosto 16, 2006
Fotografia do coração
Nas paredes, nas estantes, espalhados pelo chao,
Livros.
No silêncio interior,
Gritos.
Nos instantes de loucura, a doçura de um sorriso,
Que adormeceu.
Tragam duas resmas de papel para eu derramar meu sentimento
Tragam, em vasos coloridos, sonhos para eu florir.
Quero girar com saia rodada
Cantando com os olhos d'água
as rimas desta canção.
E se as histórias contam que o descompasso é normal
Eu digo "Não!"
Eu tenho o tom, eu tenho o tom...
08/08/2006
*E pra completar, a lua estava linda nesta noite
Nas paredes, nas estantes, espalhados pelo chao,
Livros.
No silêncio interior,
Gritos.
Nos instantes de loucura, a doçura de um sorriso,
Que adormeceu.
Tragam duas resmas de papel para eu derramar meu sentimento
Tragam, em vasos coloridos, sonhos para eu florir.
Quero girar com saia rodada
Cantando com os olhos d'água
as rimas desta canção.
E se as histórias contam que o descompasso é normal
Eu digo "Não!"
Eu tenho o tom, eu tenho o tom...
08/08/2006
*E pra completar, a lua estava linda nesta noite
domingo, agosto 06, 2006
E nó na garagnta, o que é que é? Será que é só tristeza? E como é que a gente chama aquilo que a gente sente e não sabe dizer o nome? Pode ser estranheza? Quero gastar as palavras, pra ver se o sentimento vai junto, mas acabo de vê-las escorregar no trampulim da minha cabeça. Ontem a noite sonhei que plantavam-se árvores no banheiro. E nascia-se macarrão. E brotavam flores amarelas. Foi uma sensação diferente, não menos esquisita do que a que estou sentindo agora. De onde mais brotam flores? Estou murcha, sei que de mim não são. Mas o que eu queria dzer mesmo, é que preciso dizer o que não sei como se diz. E a quem precisa ouvir, não me interessa. Digo calando-me para mim, é um artifício pra tentar me escutar. O nó na garaganta foi bem dado, é como aqueles que se usa no rapel. Devo ter pensado em rapel por estar querendo neste exato momento a sensação de não ter medo, e saltar! É estranho, sei lá...
segunda-feira, julho 24, 2006
Dedicatória do Autor
"...A todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente ineperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu nesse instante explodir em: eu. Esse eu que é vós, pois não aguento mais ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que atrapalha a vida é escrever.
E-e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando..."
Clarice Lispector em "A hora da Estrela"
Vou me divertir esses dias com esta dádiva...
E-e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando..."
Clarice Lispector em "A hora da Estrela"
Vou me divertir esses dias com esta dádiva...
terça-feira, julho 18, 2006
Mas que coisa!
Uma coisa é inutil enquanto simplismente coisa. Fitei uma cadeira e duvidei da sua existência. Uma cadeira só é uma cadeira quando estou usando-a. Minha caneta, meu lápis, meu som...Tantas coisas são sempre apenas tantas coisas. Uma luneta não é nada para mim. To pensando até em comprar uma, deve servir pra olhar pro céu. E que coisa linda é uma estrela. Quer dizer, nem sei se estrelas são coisas. Eu não as uso com muita frequencia, e elas, iponentes , nunca deixam de ser. E o amor, só é amor quando se ama? Tem um moço que amo mesmo sem estar amando-0, de vez em quando fecho os olhos e descubro que aquele amor está lá. Sendo assim, o amor não é coisa nenhuma, pois a sua utilidade reside no simples ato de amar. Mas tem gente que precisa de coisas pra acreditar que o amor existe. Seriam as palavras coisas também? Qual a utilidade da palavra medo? Depois que eu a utilizo para descrever a sensação que tenho quando estou na altura infinita do precipício ela deixa de fazer sentido. Eu digo "medo", você consegue imaginar o que estou sentindo, e a palavra em si, deixa de existir.
Me lembrei de alguém que vivia me pedindo coisas para acreditar no meu sentimento, e um sorriso nunca serviu. Sorriso não é coisa, pois ele se perpetua depois que se encerra o ato de sorrir. É difícil caracterizar o que é de fato uma "coisa". E que coisa esquisita sou eu. Coisa? Tem sido constante o uso que faço de mim, mas não deixo de ser quando não utilizo o potencial que sou. Ou deixo? Meu Deus! Estou me sentindo a cadeira que fitei antes de começar a escrever...
Me lembrei de alguém que vivia me pedindo coisas para acreditar no meu sentimento, e um sorriso nunca serviu. Sorriso não é coisa, pois ele se perpetua depois que se encerra o ato de sorrir. É difícil caracterizar o que é de fato uma "coisa". E que coisa esquisita sou eu. Coisa? Tem sido constante o uso que faço de mim, mas não deixo de ser quando não utilizo o potencial que sou. Ou deixo? Meu Deus! Estou me sentindo a cadeira que fitei antes de começar a escrever...
segunda-feira, julho 17, 2006
Felicidade inexplicável
sexta-feira, julho 07, 2006
Um pedido inusitado
-Então vamos fazer um rangão?
Essa história de Thays se alimentar saudavelmente está me influenciando. Fomos ao mercado comprar folhas, verduras, massa integral...coisas desse tipo.
Eu me assustei quando ouvi a voz masculina atrás de mim. Estava na fila, terminando de enviar uma mensagem pelo celular. Olhei pra tráz e me deparei com aquelas feições que exibiam uns quarenta e poucos anos de cansaço, embriaguez, desgosto e tristeza.
-A senhora pode pagar pra mim? Perguntou ele levantando uma calabresa que fazia escorrer óleo em suas mãos. Afirmei que sim apenas com um aceno de cabeça, e fiquei tentando imaginar quanto custaria (em dinheiro) aquela boa ação. Após um período de silêncio, incomodada com o odor de alcool que exalava dele, perguntei:
- Estava bebendo foi?
Ele negou e começou a repetir aquele discurso comum entre os pedintes. "Eu não tomo nada de ninguém, feio é roubar, aliás, acho até que eu merecia mais do que isso da senhora". O teor das palavras não me agradou, soou como um prelúdio a um assalto.
Nas outras filas, as pessoas olhavam para nós e teciam comentários que eu não consegui identificar quais.
Thays, que tinha ido buscar o pão que haviamos esquecido, retornou e, notando a presença dele, lançou aquele olhar amedrontador que só ela tem, e que é capaz de deixar qualquer um sem ar. Ergueu as sombrancelhas para mim, num gesto de quem pergunta "O que está acontecendo?". E eu, também com o olhar, respondi que estava tudo bem.
-Vai comer isso aí com que? - Perguntou ela
- Com arroz
- Já tem arroz em casa?
- Já sim senhora. Só não tenho casa.
- E a farinha, já tem? Sobrepus a pergunta para não permitir que a resposta anterior penetrasse completamente na minha cabeça.
- Não senhora, não precisa
- Tem certeza que não quer levar o arroz? Thays insitiu
- Não senhora, mas sabe o que eu queria?
Esperamos ele responder imaginando que seria pedido feijão, macarrão, ou um quilo de frango até.
-Um salgadinho, preu levar pros meus filhos.
O olhar de surpresa de Thays foi notório. Lembrei daqueles dias que a gente tem vontade de fazer uma estravagância. Pedir o prato mais caro do restaurante, tomar um pote de sorvetes, beber o melhor vinho, mesmo que isso vá custar um pouquinho mais.
-Quanto filhos o senhor tem?
Ele respondeu com o dedos, e um sorriso disfarçado no rosto, que eram dois.
-Então pegue dois.
Thays ficou preocupada de ele não conseguir encontrar a nossa fila quando voltasse, mas em poucos minutos ele retornou com os dois pacotes de salgadinho na mão - um da elma chips e o outro de qualidade inferior.
-O senhor mora onde?
- Eu não tenho casa não senhora. Sou de Recife e to morando lá no viaduto da fonte nova. Às vezes moro lá, às vezes em um que tem lá em nazaré.
- E como é o nome do Sr?
Fernado José e um sobrenome que eu não consigo lembrar. Este era o nome da criatura suja que nos colocava de frente com a pobreza, a miséria, o frio e a falta de perspectiva.
-E porque o senhor estava bebendo? -Thays não cansava de tantas perguntas
- Senhora?
- PORQUE-O-SENHOR-ESTAVA-BEBENDO? Repetiu ela de forma bem articulada.
-Desgosto da vida! Respondeu instantâneamente. Provocando em mim um silêncio ensurdecedor, enquanto aquela história de vida provocava ruídos intensos em minha cabeça.
-E o senhor tem família em Recife?- Peguntei
-Tenho um irmão
-E ele não te ajuda?
- Não. - Fernado José riu.- Ele é sargento da polícia. Disse pra eu fazer por mim, porque ele fez por ele. As únicas pessoas que eram boas pra mim eram meu pai e minha mãe. Mas eles já morreram. O meu pai, pra senhora ter uma idéia, ao invés de me levar pra morar em um lugar decente, me levou pra morar com um monte de tarado.
Não compreendi a aparente contradição da informação.
-Tarado?- Indaguei
-Sim tarado!
Thays, mais uma vez, com um simples olhar conseguiu evitar que eu insistisse em arrancar detalhes da informação.
Estávamos impacientes porque o cliente da nossa frente tinha desistido de um ítem da compra e foi uma demora insuportável até o fiscal responsável pelo cancelamento chegar.
- Vamos deixar tudo aí e ir pra casa. Não aguento mais esperar. - Sugeriu Thays.
- Não senhora, epere mais um pouco. - Suplicou.
Os seguranças da loja ja estavam se mobilizando com seus aparelhos de rádio e olhares intimidadores.
- Algum problema aí?
- Ele está com a gente. -Respondemos
Ainda ouvi o comentário de um deles "fica dando ousadia, depois quando é assaltada lá fora, acha ruim."
As mercadorias dele foram registradas primeiro, ele embalou-as num saco e estendeu a mão para omprimentar Thays- Aquela mesma mão lambusada que segurava a calabresa pingando óleo. Depois de muito hesitar, ela retribuiu o ato, estendendo-o a mão. O cumprimento foi desses modernos que se dá um tapinha não mão e depois uma espécie de murro. Repetiu o cumprimento comigo, agradeceu-nos e sorrindo saiu caminhando com sua sacola na mão..
47 reais e oitenta e nove centavos foi o valor total da compra. Dos quais 3, 18 era a soma do preço de uma calabreza, um salgadinho da elma chips e um outro de qualidade inferior.
Essa história de Thays se alimentar saudavelmente está me influenciando. Fomos ao mercado comprar folhas, verduras, massa integral...coisas desse tipo.
Eu me assustei quando ouvi a voz masculina atrás de mim. Estava na fila, terminando de enviar uma mensagem pelo celular. Olhei pra tráz e me deparei com aquelas feições que exibiam uns quarenta e poucos anos de cansaço, embriaguez, desgosto e tristeza.
-A senhora pode pagar pra mim? Perguntou ele levantando uma calabresa que fazia escorrer óleo em suas mãos. Afirmei que sim apenas com um aceno de cabeça, e fiquei tentando imaginar quanto custaria (em dinheiro) aquela boa ação. Após um período de silêncio, incomodada com o odor de alcool que exalava dele, perguntei:
- Estava bebendo foi?
Ele negou e começou a repetir aquele discurso comum entre os pedintes. "Eu não tomo nada de ninguém, feio é roubar, aliás, acho até que eu merecia mais do que isso da senhora". O teor das palavras não me agradou, soou como um prelúdio a um assalto.
Nas outras filas, as pessoas olhavam para nós e teciam comentários que eu não consegui identificar quais.
Thays, que tinha ido buscar o pão que haviamos esquecido, retornou e, notando a presença dele, lançou aquele olhar amedrontador que só ela tem, e que é capaz de deixar qualquer um sem ar. Ergueu as sombrancelhas para mim, num gesto de quem pergunta "O que está acontecendo?". E eu, também com o olhar, respondi que estava tudo bem.
-Vai comer isso aí com que? - Perguntou ela
- Com arroz
- Já tem arroz em casa?
- Já sim senhora. Só não tenho casa.
- E a farinha, já tem? Sobrepus a pergunta para não permitir que a resposta anterior penetrasse completamente na minha cabeça.
- Não senhora, não precisa
- Tem certeza que não quer levar o arroz? Thays insitiu
- Não senhora, mas sabe o que eu queria?
Esperamos ele responder imaginando que seria pedido feijão, macarrão, ou um quilo de frango até.
-Um salgadinho, preu levar pros meus filhos.
O olhar de surpresa de Thays foi notório. Lembrei daqueles dias que a gente tem vontade de fazer uma estravagância. Pedir o prato mais caro do restaurante, tomar um pote de sorvetes, beber o melhor vinho, mesmo que isso vá custar um pouquinho mais.
-Quanto filhos o senhor tem?
Ele respondeu com o dedos, e um sorriso disfarçado no rosto, que eram dois.
-Então pegue dois.
Thays ficou preocupada de ele não conseguir encontrar a nossa fila quando voltasse, mas em poucos minutos ele retornou com os dois pacotes de salgadinho na mão - um da elma chips e o outro de qualidade inferior.
-O senhor mora onde?
- Eu não tenho casa não senhora. Sou de Recife e to morando lá no viaduto da fonte nova. Às vezes moro lá, às vezes em um que tem lá em nazaré.
- E como é o nome do Sr?
Fernado José e um sobrenome que eu não consigo lembrar. Este era o nome da criatura suja que nos colocava de frente com a pobreza, a miséria, o frio e a falta de perspectiva.
-E porque o senhor estava bebendo? -Thays não cansava de tantas perguntas
- Senhora?
- PORQUE-O-SENHOR-ESTAVA-BEBENDO? Repetiu ela de forma bem articulada.
-Desgosto da vida! Respondeu instantâneamente. Provocando em mim um silêncio ensurdecedor, enquanto aquela história de vida provocava ruídos intensos em minha cabeça.
-E o senhor tem família em Recife?- Peguntei
-Tenho um irmão
-E ele não te ajuda?
- Não. - Fernado José riu.- Ele é sargento da polícia. Disse pra eu fazer por mim, porque ele fez por ele. As únicas pessoas que eram boas pra mim eram meu pai e minha mãe. Mas eles já morreram. O meu pai, pra senhora ter uma idéia, ao invés de me levar pra morar em um lugar decente, me levou pra morar com um monte de tarado.
Não compreendi a aparente contradição da informação.
-Tarado?- Indaguei
-Sim tarado!
Thays, mais uma vez, com um simples olhar conseguiu evitar que eu insistisse em arrancar detalhes da informação.
Estávamos impacientes porque o cliente da nossa frente tinha desistido de um ítem da compra e foi uma demora insuportável até o fiscal responsável pelo cancelamento chegar.
- Vamos deixar tudo aí e ir pra casa. Não aguento mais esperar. - Sugeriu Thays.
- Não senhora, epere mais um pouco. - Suplicou.
Os seguranças da loja ja estavam se mobilizando com seus aparelhos de rádio e olhares intimidadores.
- Algum problema aí?
- Ele está com a gente. -Respondemos
Ainda ouvi o comentário de um deles "fica dando ousadia, depois quando é assaltada lá fora, acha ruim."
As mercadorias dele foram registradas primeiro, ele embalou-as num saco e estendeu a mão para omprimentar Thays- Aquela mesma mão lambusada que segurava a calabresa pingando óleo. Depois de muito hesitar, ela retribuiu o ato, estendendo-o a mão. O cumprimento foi desses modernos que se dá um tapinha não mão e depois uma espécie de murro. Repetiu o cumprimento comigo, agradeceu-nos e sorrindo saiu caminhando com sua sacola na mão..
47 reais e oitenta e nove centavos foi o valor total da compra. Dos quais 3, 18 era a soma do preço de uma calabreza, um salgadinho da elma chips e um outro de qualidade inferior.
terça-feira, julho 04, 2006
Conto em letras Garrafais
"Todos os dias esvasiava uma garrafa, colocava o seu pedido e jogava-a no mar. Nunca recebeu resposta, mas tornou-se alcoolatra."
*Li este conto no 3° ano, num lembro o nome do autor...
*Li este conto no 3° ano, num lembro o nome do autor...
sexta-feira, junho 30, 2006
Uma fotografia viva
Eu vi uma moça que parecia uma fotografia antiga. Pela sua moda defasada, seus cabelos desarrumados e olhar estático. A rua transbordava de transeuntes e eu observava o dia começar apressado pelo vidro embaçado da condução que me transportava para o meu destino rotineiro. Na cadeira da frente uma senhora levantou-se para ceder o lugar a um idoso que estava em pé tentando, a custo, equilibrar-se. Ele estava há horas do meu lado e eu sequer notei, tão distraída que estava com a vida que acontecia lá fora. Era a imagem viva da fotografia antiga que me roubava a atenção. Lembrei-me de uma moldura que tenho de mim quando criança, vestida numa moda igualmente defasada, de cabelos não menos desarrumados e uma magreza aguda que os anos muito pouco conseguiram amenizar. O senhor idoso permaneceu sentado apenas até a parada seguinte, onde desembarcou. Mas aquele trecho curto do trajeto pareceu infinito. Como uma fotografia que eterniza imagens, histórias e sensações.
quarta-feira, junho 28, 2006
Eu respirei bem fundo, para ver se do meu suspiro nascia alguma inspiração, mas nada me ocorreu. Tenho pensado só em equações, em modelos matemáticos, balanços de energia...e daí? Outro dia sonhei que para a minha viagem acontecer seria necessário resolver uma equação diferencial através de série de potências, mas tinha um coeficiente que eu não consegui determinar. Falando em séries, lembrei que estou devendo um post em homenagem a Murilo, meu leitor assíduo, como ele mesmo se entitula. Não sei como mesclar poesia e engenharia. Talvez se eu escrevesse "EU" estaria fazendo isso, pois estou impregnada dos dois. Mas, voltando às séries...o que gostaria de dizer, mas ainda não descobri como fazê-lo é a respeito do vício que criamos de enxergar as pessoas e coisas que nos cercam como formas sintetizadas de uma expansão em séries de infinitos termos, ou simplismente, truncá-las em um ponto, desprezando outros que comprometem completamente a sua essência. Faço isso comigo, cada dia desprezoum termo meu - que posso, com a licença da metáfora, chamar de aspecto- simplismente para simplificar a solução de mim. Mas qual é mesmo o motivo disto? É puro vício! Estava tentando encontrar as minhas condições de contorno, mas agora relaxei, pois a minha viagem aconteceu, mesmo sem que eu conhecesse aquela constante lá que não consegui determinar. Deveria estar assistindo aula de adsorção agora, mas estou de cabeça baixa enquanto ouço falar de sítios ativos, isotermas de Langmuir. Preciso sentir a textura de uma flor lilás para voltar ao equilíbrio das letras e dos números, entre o que é objetivo e o que é sentimento. Vou voltar a assistir aula, da janela da minha sala da pra ver o mar...
segunda-feira, junho 26, 2006
...
Há dias que sou mar,
Há dias que sou caverna,
Há ruídos que sou silencio,
Há segundos que sou eterna...
Há dias que sou caverna,
Há ruídos que sou silencio,
Há segundos que sou eterna...
domingo, junho 04, 2006
Uma frase sem sentido
Estou vazia da poesia. MAs sinto uma vontade pulsante de escrever. Faltam-me palavras, palavras estas que nem sei se existem. Há uns dias pensei nesta frase: "Nos vemos em outubro, quando o sol estiver brilhando mais". Desconheço o sentido disso, nem rima tem. Engraçado que mesmo sem encontrar a palavra exata pro meu agora, eu vou me esvaziando ao escrever. Parece que consigo afastar a estranheza que estou sentindo...
Preguiça
Há tanto o que fazer e eu permaneço aqui imóvel. Mas há tanto o que fazer mesmo! Nos sentidos todos. Sentir preguiça é gostoso, ainda mais quando está frio. Às vezes tenho preguiça até de viver, mas o tempo vai passando sem intervalos e a minha vida vai vivendo por si mesma, em meu lugar, sem que eu participe dela. Ainda não experimentei ficar isenta de pensamento, mas deve ser legal. Agora mesmo tentei: Ficar parada assim, apenas sendo...Engraçado isso, a minha vida ir vivendo absoluta enquanto eu descanso de viver. Mas somos cumplices, muitas vezes já vivi por ela, quando ela precisou se ausentar. Ando preguiçosa por demais. Vou sorrir um pouco, exercitar os musculos...
segunda-feira, maio 29, 2006
Deixa pra lá
Era um crioulo, um albino e um moreno de olhos azuis. Dois deles trajavam um terno escuro de linho e traziam uma maleta nas mãos. O terceiro, não menos elegante, exibia uma gravata estampada sobre uma camisa de seda e um relógio de couro marrom – Mas que tolice a minha, começar uma história pela descrição das roupas. Enxerguei três advogados, mas não era essa a intenção – A verdade é que eram três rapazes, os mesmos crioulo, albino e moreno de olhos azuis, sentados num botequim da primeira transversal com a rua principal tomando cerveja em plena segunda feira. Para ser mais clara, direi que eram três estudantes, recém ingressos na faculdade – pode ser no curso de direito, para aproveitar a idéia da primeira imagem – Mas eles calçavam tênis, um deles vestia uma camisa de um time de futebol famoso. Vejo que não é esta ainda a descrição que pretendo. Vou deixar então que a história seja apenas o crioulo, o albino e o moreno de olhos azuis...
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