quinta-feira, outubro 05, 2006

Ainda sem título

Folhas amarelas da primavera cobriam o chão daquela manhã de sol tímido. Sentou-se, tirou do bolso um cigarro amassado, fitou-o e decidiu não fumar. Andava meio satisfeito com as suas confusões e temia que, acidentalmente, acabasse por resolvê-las - Cigarro é um poderoso ato de reflexão! Pelas cores do céu podia-se prever que não haveria pôr-do-sol, embora fossem tantas as horas até o entardecer. Pôs-se então a pensar para não pensar. Coloriu de amarelo alaranjado, com pitadas de azul, os seus pensamentos nublados. Novamente, num ato instintivo, puxou do bolso o cigarro amassado, e não menos instintivo foi seu ato de rejeição. Estava infinitamente feliz com as confusões que abrigava. Sentia-se satisfeito por tê-las conseguido criar. Cada uma delas, de maneira peculiar e não muito aguda, desordenava-o, fazendo-o experimentar a sensação desconhecida de emaranhar-se dentro de si. Apertava cada vez mais forte o cigarro, que não voltara a guardar no bolso. Aquele mesmo cigarro amassado que tentava roubar-lhe o encanto da confusão. Deitou-se no tapete amarelo produzido pela folhagem, deixou os braços abertos num ângulo inconfundível de prazer, e olhando para o céu cinza escuro, sentiu-se transbordar confuso de si, num segundo quase infinito. Sequer notou o cigarro amassado cair da mão...


PS.: Aceito sugestões para o título!

sexta-feira, setembro 29, 2006

Estou aqui, olhando pra tela, sem saber ao certo como escrever o que é preciso saltar para fora do pensamento. Hoje um amigo me falou que não consegue enxergar em mim a mesma pessoa que escreve. Alê: Esta sou eu! Não tente roubar de mim a descoberta mais preciosa que fiz. Este não-eu que às vezes escapole é a parte essencial deste eu que você vê. Se eu te contasse que tem uma população infinita morando dentro de mim...
Teve uma emoção que senti esses dias e ainda não consegui traduzir em linhas, mas vale a pena registrar aqui. Arrancaram todas as árvores que moravam nos fundos da minha janela, vão construir prédios, "Reserva Atlântica" é o nome do condomínio, estranho isso! Mais estranho foi eu chorar ao ver que do verde nada restou e não conseguir identificar as causas das minhas lágrimas. Chorei porque cortaram as árvores, ou porque não haveria mais árvores para acalmarem a minha visão? Chorei porque os pássaros perderam seus ninhos, ou porque não haveria mais canto de pássaros pela manhã? Engraçado que descobri que o canto mais doce que escutava ao acordar é de um pássaro que vive numa gaiola na janela do vizinho do primeiro andar. E eu que pensava que era a sinfonia da liberdade...Hoje ouvi falar de redes neurais, inteligencia artificial...Fascinante! Ando gastando demais, e nem sei o que fazer com as bobagens que compro. Ainda bem que o fim de semana chegou! Estou cansada, a rotina da semana tem me sugado demais...

quinta-feira, setembro 28, 2006

Toda borboleta deveria ser poeta,
Alguém sabe dizer se falta muito pro fim de semana?

quarta-feira, setembro 27, 2006

Há duas pinturas na parede,
De contornos distintos que me confundem os instintos.
Há duas saudades na estante
E um laço de fita que me enfeita o semblante
A moça do sapato lilás sou eu!
Sentada na calçada da cidade desabitada.
Eu quero chover meus sentimentos
E soluçar as risadas que eu não dei.
As duas pinturas me roubaram os pensamentos
E a textura das suas cores, eu pouco sei,
Eu nada sei...

terça-feira, setembro 26, 2006


Estou economizando olho,
Porque olhar em demasia prejudica a convicção!
Às vezes vejo coisas que não posso crer,
Às vezes levo o que vejo pro coração
E do olho a lágrima cai.
Vou observar tudo com os póros agora
Que se contraem automaticamente quando algo vai mal,
Fecho os olhos e vejo a memória do que vi
Abro os poros e permito a energia fluir
Estou com frio,
E não vejo outra saída senão escrever...

[Escrito em 19/09/2006]

sábado, setembro 16, 2006

Cidade

Nessa cidade de ruas estreitas,
De ruas largas,
Enladeiradas
Deixo pegadas que ninguém vê
Às vezes me perco na cidade
Só pra me encontrar
Só pra arriscar te ver
E as batidas de alguns tambores
No coração...
Quero colocar a cidade em mim
Nunca mais me senti assim
Esse deserto
Mesmo sem você por perto
Já consegui sobreviver
Eu sei que posso achar
Badalação e gente por aí
Mas hoje escolhi ficar comigo
Na minha calçada
Na minha cidade desabitada.

[Escrito em Abril de 2003]

sexta-feira, setembro 15, 2006

Felicidade

Mergulhou no mar para sentir-se mais livre,
E sucumbiu!
Primeiro, afogaram-se os sonhos,
Depois as pequenas mágoas,
Como cacos de vidro, sucumbiram as lembranças
Até faltar-lhe de todo o ar.
O mar parecia curvar-se para receber mais uma vida
Que já não era tão mais viva assim
Ondas quebravam na praia
Levando e despejando na areia as sobras de um domingo de sol
Plásticos, garrafas e palitos juntavam-se ao corpo sugado pelas águas
E o vento dançava soprando a rotineira canção.

Felicidade é afogar-se de tão livre
E morar pra sempre na imensidão do mar...

quarta-feira, setembro 13, 2006

A pedido de Deby, e em homenagem a Sara...

O vendedor de palavras

Vende-se três linhas preenchidas com palavras
Palavras doces, suaves, até amargas
Sabe-se lá o que é preciso ouvir...
Segue em anexo sorrisos impressos
Olhares congelados, sabores e excessos.
Três linhas igualmente espaçadas
Para traduzir silêncios no pequeno vão
Vende-se palavras coloridas
Para quem precisa derramar a seiva do coração

segunda-feira, setembro 11, 2006

Saudade,
Torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem....

Hoje a saudade me dói como uma faca


PS: Trecho de uma música de Caetano

segunda-feira, setembro 04, 2006

Pôr-do-sol

Hoje eu não quero dormir sem ver o sol se pôr
Vou sair por essas ruas engarrafadas
Carros, buzinas, gente apressada
Faróis
Parece que a cidade mudou
Mas eu nunca amanheço igual
Já senti medo de tudo quase
E a sensação de que partia e ficava
Em cada esquina
Em cada vão
Às vezes perdida na imensidão
Perdida num silêncio em que se ousa apenas respirar
Equilibrando gritos roucos
Desejos loucos
Na velocidade das horas que não me pertencem
Hoje eu preciso ver o sol
Ver a bola de fogo ser engolida pelo mar
Antes de deixar a rotina me cegar.

segunda-feira, agosto 21, 2006

...E derramou-se em delicadeza, que exalava o perfume de bromélias azuis
A calçada estremeceu com seus passos firmes,
Firmes de uma delicadeza que fazia confundir gravidade com leveza
Era a delicadeza áspera de um sorriso opaco,
Com textura de sonho que não se recorda mais
Derramou-se intermitente por não caber mais em si
Ocupando com fluxo intenso os paralelepípados,
Os olhos alheios,
As correntes de vento...

quarta-feira, agosto 16, 2006

Fotografia do coração

Nas paredes, nas estantes, espalhados pelo chao,
Livros.
No silêncio interior,
Gritos.
Nos instantes de loucura, a doçura de um sorriso,
Que adormeceu.
Tragam duas resmas de papel para eu derramar meu sentimento
Tragam, em vasos coloridos, sonhos para eu florir.
Quero girar com saia rodada
Cantando com os olhos d'água
as rimas desta canção.
E se as histórias contam que o descompasso é normal
Eu digo "Não!"
Eu tenho o tom, eu tenho o tom...

08/08/2006

*E pra completar, a lua estava linda nesta noite

domingo, agosto 06, 2006

E nó na garagnta, o que é que é? Será que é só tristeza? E como é que a gente chama aquilo que a gente sente e não sabe dizer o nome? Pode ser estranheza? Quero gastar as palavras, pra ver se o sentimento vai junto, mas acabo de vê-las escorregar no trampulim da minha cabeça. Ontem a noite sonhei que plantavam-se árvores no banheiro. E nascia-se macarrão. E brotavam flores amarelas. Foi uma sensação diferente, não menos esquisita do que a que estou sentindo agora. De onde mais brotam flores? Estou murcha, sei que de mim não são. Mas o que eu queria dzer mesmo, é que preciso dizer o que não sei como se diz. E a quem precisa ouvir, não me interessa. Digo calando-me para mim, é um artifício pra tentar me escutar. O nó na garaganta foi bem dado, é como aqueles que se usa no rapel. Devo ter pensado em rapel por estar querendo neste exato momento a sensação de não ter medo, e saltar! É estranho, sei lá...

segunda-feira, julho 24, 2006

Dedicatória do Autor

"...A todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente ineperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu nesse instante explodir em: eu. Esse eu que é vós, pois não aguento mais ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que atrapalha a vida é escrever.
E-e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando..."

Clarice Lispector em "A hora da Estrela"
Vou me divertir esses dias com esta dádiva...

terça-feira, julho 18, 2006

Mas que coisa!

Uma coisa é inutil enquanto simplismente coisa. Fitei uma cadeira e duvidei da sua existência. Uma cadeira só é uma cadeira quando estou usando-a. Minha caneta, meu lápis, meu som...Tantas coisas são sempre apenas tantas coisas. Uma luneta não é nada para mim. To pensando até em comprar uma, deve servir pra olhar pro céu. E que coisa linda é uma estrela. Quer dizer, nem sei se estrelas são coisas. Eu não as uso com muita frequencia, e elas, iponentes , nunca deixam de ser. E o amor, só é amor quando se ama? Tem um moço que amo mesmo sem estar amando-0, de vez em quando fecho os olhos e descubro que aquele amor está lá. Sendo assim, o amor não é coisa nenhuma, pois a sua utilidade reside no simples ato de amar. Mas tem gente que precisa de coisas pra acreditar que o amor existe. Seriam as palavras coisas também? Qual a utilidade da palavra medo? Depois que eu a utilizo para descrever a sensação que tenho quando estou na altura infinita do precipício ela deixa de fazer sentido. Eu digo "medo", você consegue imaginar o que estou sentindo, e a palavra em si, deixa de existir.
Me lembrei de alguém que vivia me pedindo coisas para acreditar no meu sentimento, e um sorriso nunca serviu. Sorriso não é coisa, pois ele se perpetua depois que se encerra o ato de sorrir. É difícil caracterizar o que é de fato uma "coisa". E que coisa esquisita sou eu. Coisa? Tem sido constante o uso que faço de mim, mas não deixo de ser quando não utilizo o potencial que sou. Ou deixo? Meu Deus! Estou me sentindo a cadeira que fitei antes de começar a escrever...

segunda-feira, julho 17, 2006

Felicidade inexplicável


Viva a felicidade,
Abolindo quase toda maldade
Como se o amor troxesse o gosto da infância...

(Não sei quem é o compositor, mas Vanessa da Mata canta)

sexta-feira, julho 07, 2006

Um pedido inusitado

-Então vamos fazer um rangão?

Essa história de Thays se alimentar saudavelmente está me influenciando. Fomos ao mercado comprar folhas, verduras, massa integral...coisas desse tipo.

Eu me assustei quando ouvi a voz masculina atrás de mim. Estava na fila, terminando de enviar uma mensagem pelo celular. Olhei pra tráz e me deparei com aquelas feições que exibiam uns quarenta e poucos anos de cansaço, embriaguez, desgosto e tristeza.

-A senhora pode pagar pra mim? Perguntou ele levantando uma calabresa que fazia escorrer óleo em suas mãos. Afirmei que sim apenas com um aceno de cabeça, e fiquei tentando imaginar quanto custaria (em dinheiro) aquela boa ação. Após um período de silêncio, incomodada com o odor de alcool que exalava dele, perguntei:
- Estava bebendo foi?

Ele negou e começou a repetir aquele discurso comum entre os pedintes. "Eu não tomo nada de ninguém, feio é roubar, aliás, acho até que eu merecia mais do que isso da senhora". O teor das palavras não me agradou, soou como um prelúdio a um assalto.
Nas outras filas, as pessoas olhavam para nós e teciam comentários que eu não consegui identificar quais.

Thays, que tinha ido buscar o pão que haviamos esquecido, retornou e, notando a presença dele, lançou aquele olhar amedrontador que só ela tem, e que é capaz de deixar qualquer um sem ar. Ergueu as sombrancelhas para mim, num gesto de quem pergunta "O que está acontecendo?". E eu, também com o olhar, respondi que estava tudo bem.

-Vai comer isso aí com que? - Perguntou ela
- Com arroz
- Já tem arroz em casa?
- Já sim senhora. Só não tenho casa.
- E a farinha, já tem? Sobrepus a pergunta para não permitir que a resposta anterior penetrasse completamente na minha cabeça.
- Não senhora, não precisa
- Tem certeza que não quer levar o arroz? Thays insitiu
- Não senhora, mas sabe o que eu queria?
Esperamos ele responder imaginando que seria pedido feijão, macarrão, ou um quilo de frango até.

-Um salgadinho, preu levar pros meus filhos.

O olhar de surpresa de Thays foi notório. Lembrei daqueles dias que a gente tem vontade de fazer uma estravagância. Pedir o prato mais caro do restaurante, tomar um pote de sorvetes, beber o melhor vinho, mesmo que isso vá custar um pouquinho mais.

-Quanto filhos o senhor tem?
Ele respondeu com o dedos, e um sorriso disfarçado no rosto, que eram dois.
-Então pegue dois.

Thays ficou preocupada de ele não conseguir encontrar a nossa fila quando voltasse, mas em poucos minutos ele retornou com os dois pacotes de salgadinho na mão - um da elma chips e o outro de qualidade inferior.

-O senhor mora onde?
- Eu não tenho casa não senhora. Sou de Recife e to morando lá no viaduto da fonte nova. Às vezes moro lá, às vezes em um que tem lá em nazaré.
- E como é o nome do Sr?

Fernado José e um sobrenome que eu não consigo lembrar. Este era o nome da criatura suja que nos colocava de frente com a pobreza, a miséria, o frio e a falta de perspectiva.

-E porque o senhor estava bebendo? -Thays não cansava de tantas perguntas
- Senhora?
- PORQUE-O-SENHOR-ESTAVA-BEBENDO? Repetiu ela de forma bem articulada.
-Desgosto da vida! Respondeu instantâneamente. Provocando em mim um silêncio ensurdecedor, enquanto aquela história de vida provocava ruídos intensos em minha cabeça.

-E o senhor tem família em Recife?- Peguntei
-Tenho um irmão
-E ele não te ajuda?
- Não. - Fernado José riu.- Ele é sargento da polícia. Disse pra eu fazer por mim, porque ele fez por ele. As únicas pessoas que eram boas pra mim eram meu pai e minha mãe. Mas eles já morreram. O meu pai, pra senhora ter uma idéia, ao invés de me levar pra morar em um lugar decente, me levou pra morar com um monte de tarado.

Não compreendi a aparente contradição da informação.
-Tarado?- Indaguei
-Sim tarado!

Thays, mais uma vez, com um simples olhar conseguiu evitar que eu insistisse em arrancar detalhes da informação.

Estávamos impacientes porque o cliente da nossa frente tinha desistido de um ítem da compra e foi uma demora insuportável até o fiscal responsável pelo cancelamento chegar.
- Vamos deixar tudo aí e ir pra casa. Não aguento mais esperar. - Sugeriu Thays.
- Não senhora, epere mais um pouco. - Suplicou.

Os seguranças da loja ja estavam se mobilizando com seus aparelhos de rádio e olhares intimidadores.
- Algum problema aí?
- Ele está com a gente. -Respondemos
Ainda ouvi o comentário de um deles "fica dando ousadia, depois quando é assaltada lá fora, acha ruim."

As mercadorias dele foram registradas primeiro, ele embalou-as num saco e estendeu a mão para omprimentar Thays- Aquela mesma mão lambusada que segurava a calabresa pingando óleo. Depois de muito hesitar, ela retribuiu o ato, estendendo-o a mão. O cumprimento foi desses modernos que se dá um tapinha não mão e depois uma espécie de murro. Repetiu o cumprimento comigo, agradeceu-nos e sorrindo saiu caminhando com sua sacola na mão..

47 reais e oitenta e nove centavos foi o valor total da compra. Dos quais 3, 18 era a soma do preço de uma calabreza, um salgadinho da elma chips e um outro de qualidade inferior.

terça-feira, julho 04, 2006

Conto em letras Garrafais

"Todos os dias esvasiava uma garrafa, colocava o seu pedido e jogava-a no mar. Nunca recebeu resposta, mas tornou-se alcoolatra."


*Li este conto no 3° ano, num lembro o nome do autor...