segunda-feira, maio 29, 2006
E COMO É?
E não se envolver, como é que faz? A gente suja só a ponta dos dedos e transfere a sensação pro resto das mãos. Fecha os olhos e fica só observando o que tem lá dentro, imaginando se esse lá dentro derrepente saltasse pra fora e caísse no poço fundo daquele que tenta se esconder. Não se envolver se faz ao contrário, soluçando pra dentro, andando em silêncio, cantando sem voz. A gente vai deixando o rio correr, e quando ele estiver bem perto do mar, é só nadar contra a correnteza e voltar pra ilha de onde partiu. Não se envolver é com a ponta dos dedos, a ponta da língua, a ponta dos pés. Mas qualquer ponta de pensamento ou fagulha de sentimento que cai no coração, põe tudo a perder e a gente fica realmente sem saber como é que faz
UM DOMINGO PRODUTIVO
Estive pensando...
Pensei nos antigos amores. Naqueles que não deram certo, naqueles que porventura vingaram e em tantos outros que sequer saíram da imaginação.
Lembrei dos antigos amigos. Daqueles com os quais perdi a cumplicidade por ser tão ausente, daqueles que consegui fortalecer os laços e de tantos que nem vejo mais. Fiz projeções pra saber quais deles realmente ficarão.
Lembrei da mulher catando lixo e dos limites estreitos entre a loucura e a razão.
Pensei nas coisas que estão nascendo e mudando e no medo que elas trazem consigo.
Lembrei da antiga lavadeira da família e pensei na velhice que invade o corpo roubando a força de trabalho e a capacidade de defesa.
Lembrei da minha sobrinha, que está crescendo longe de mim.
Pensei no quanto eu sou esquisita, às vezes.
Lembrei dos meus sonhos que foram se tornando cada vez mais flexíveis. Construí diálogos, criei situações.
Até chorei!
Lembrei do meu cachorro que fugiu de casa.
De uma bicicleta rosa que tive quando criança.
Lembrei de mim, às vezes esqueço disso. Tenho necessidade de mim, mas como nunca é urgente, isso às vezes fica esquecido.
Outro dia estive pensando no que seria um domingo produtivo. Acho que esse foi um domingo deveras produtivo.
Lembrar é estranho, mas fermenta...
Pensei nos antigos amores. Naqueles que não deram certo, naqueles que porventura vingaram e em tantos outros que sequer saíram da imaginação.
Lembrei dos antigos amigos. Daqueles com os quais perdi a cumplicidade por ser tão ausente, daqueles que consegui fortalecer os laços e de tantos que nem vejo mais. Fiz projeções pra saber quais deles realmente ficarão.
Lembrei da mulher catando lixo e dos limites estreitos entre a loucura e a razão.
Pensei nas coisas que estão nascendo e mudando e no medo que elas trazem consigo.
Lembrei da antiga lavadeira da família e pensei na velhice que invade o corpo roubando a força de trabalho e a capacidade de defesa.
Lembrei da minha sobrinha, que está crescendo longe de mim.
Pensei no quanto eu sou esquisita, às vezes.
Lembrei dos meus sonhos que foram se tornando cada vez mais flexíveis. Construí diálogos, criei situações.
Até chorei!
Lembrei do meu cachorro que fugiu de casa.
De uma bicicleta rosa que tive quando criança.
Lembrei de mim, às vezes esqueço disso. Tenho necessidade de mim, mas como nunca é urgente, isso às vezes fica esquecido.
Outro dia estive pensando no que seria um domingo produtivo. Acho que esse foi um domingo deveras produtivo.
Lembrar é estranho, mas fermenta...
quinta-feira, maio 25, 2006
BESOURO SUICIDA
Ele estava andando meio trepido, tentando agarrar-se ao teto, a muito custo, eu diria. Parecia até carregar um peso nas costas, tão torto que andava. Mas, uma vez que estava pendurado ao teto, mais fácil seria pensar que estivesse ele sendo carregado pelo peso que equilibrava-se na camada de ar imediatamente abaixo da sua superfície. Desta maneira, eles estariam caminhando por um corredor infinito formado pelo teto e a camada invisível de ar. E como se estivesse adivinhando a minha tentativa de compreender a sua trajetória e aparente confinamento, ele de repente despencou do alto, ao se aproximar da luz. Não, não foi a luz do meu pensamento, era a luz da lâmpada, que também pendia do teto.
quarta-feira, maio 17, 2006

Numa madrugada dessas assim tão fria? Mas mesmo assim ele caminhava. O vento gélido lhe adormecia a face e tornava fria a temperatura das suas mãos. Ele cruzava os quarteirões numa velocidade, que dava a impressão de ele estar passando pelos carros, e não estes por ele. Não pensava em nada, pelo menos isso é o que tentava fazer. Olhava a todo instante para a sua sombra, que se movimentava num rítimo defasado do seu, dando-lhe a impressão que enfim conseguira libertar-se de si mesmo. Que enfim libertara-se da matéria sufocante que sempre lhe aprisionou. Estava diante de si, fugindo de si, ao mesmo tempo em que tentava alcançar seus passos apressados. Era uma fuga inútil. Parecia impossível libertar-se da forma indisociável que o perseguiu durante toda uma vida. E para sombra, era uma dependencia insuportável, porém necesária. Quase tropeçou no velho fético que dormia na calçada encolhido sobre si mesmo para amenizar o frio daquela noite cinza e muda. Mas em segundos recuperou o equilíbrio e a sombra numa cadência, não menos defasada, em seguida o acompanhou. Não mais suportando a perseguição, cruzou a viela de luzes de postes quebradas e cobriu-se de trevas. Teve a sua sombra projetada no silêncio, buscando o entendimento e aceitação dos seus obscuros e indissociáveis"eus" .
segunda-feira, maio 15, 2006
Saudade
Pela minha janela soprou uma saudade de colorido diferente, trazendo o perfume da presença que não está presente. Nuvens de fumaça perfumada desenharam as formas sutis de um sorriso e vi lábios úmidos rosados sorrindo pra mim. Saudade com gosto de cada centímetro dos gestos inconstantes, que mistura carinho manifesto e carinho contido. Saudade com o rítimo da melodia das palavras, com o brilho dos olhos e a quentura tênue das mãos. Saudade que me fez notar a ausência da presença. Que me fez lembrar da presença da ausência. Saudade que lançou no ar as memórias mais recentes. Saudade que alimenta a espera dos encontros reticentes...
quinta-feira, maio 11, 2006
UMA REFEIÇÃO DIFERENTE
Hoje vou mastigar o tédio. Trinta e duas pacientes vezes, como recomendam os especialistas. Quero testar a minha capacidade de digeri-lo. Uma vez comi a felicidade. Tinha um gosto azul de rosas amarelo avermelhadas, que demorou uns dias pra sair. Acho que vai ser hoje mesmo. É um dia perfeito! Terei a chuva como sobremesa e o canto do rouxinol. Nem sei se rouxinóis cantam na chuva, tampouco se o seu canto combina com o tédio chuvoso triturado e engolido. Estava pensando no acompanhamento: Tédio adora vinhos. Talvez seja o vinho que adora o tédio. Mas não! Seria um risco! Prefiro sentir cada centímetro do deglutir na mais perfeita lucidez. Aliás, a embriaguez é uma forma de fugir do seu sabor.
quarta-feira, maio 10, 2006
Liberdade Cristalina

Derramei uma gota d'água e ela não despencou, ficou suspensa no ar. Linda e imóvel, dando a impressão de que o tempo parara naquele exato momento. Tranportei-me para dentro daquela gota insólita flutuando numa atmosfera cheia de cor. Aos poucos o arco íris foi se formando ao redor. As flores foram dançando a música suave que fluia da emoção de estar presa dentro de uma massa cristalina estática e poderosa, capaz de livrar-se do inevitável fado que toda matéria possui de declinar. Eu vi o mundo através de uma gota d'agua! E experimentei a sensação de flutuar naquela massa de gases quase azuis. Mesmo confinada, foi a liberdade fluida e transparente que experimentei.
domingo, maio 07, 2006
Estranha despedida

Aquele era um abraço de despedida e ela nem percebeu. Os dois foram se abraçando naquele segundo que representava talvez o ultimo adeus. E foram se amando, se envolvendo, se gostando... A moça do sapato lilás olhava nos olhos dele e falava coisas em silêncio sem a intenção de se fazer entender. Com seus olhos úmidos dizia: Não pretendo mais você - Era uma mentira que contava a si mesma, tentando expulsar de si aquele desejo do que não se pode pretender. E ele enchia o ar com palavras, à medida que os silêncios da moça penetravam no silêncio posterior aos ecos da sua voz. Era um adeus que era dito sem ao menos saber se era adeus que se pretendia dizer. Com magia e saudade antecipada foram se amando. Sufocando os silêncios da despedida com onomatopéias de prazer.
quinta-feira, maio 04, 2006

Preciso alimentar-me de pessoas, e não é antropofagia! Preciso, por um outro intinerário, digerir cada aspecto indigesto do ser. Alimentar-me de pessoas, não da matéria que as alimenta - Se é que posso chamar amor, raiva, felicidade ou solidão de matéria. Preciso alimentar-me de pessoas! Não mais de palavras, cores e canções. Enjoei desse sabor insípido que tantas vezes degustei por pura necessidade de salvação. Vou começar por mim. Alimentar-me do meu sossego. Do meu assombro. Da minha felicidade. Alimentar-me da minha ira, sem alimentá-la. Deixá-la aos poucos saciar-se de si mesma, até não mais caber em si, até não mais caber em mim. E neste rítimo, ir me consumindo, me experimentando, me digerindo. E vou provar das pessoas. Sim! Prová-las-ei! As suas texturas, os seus sabores singulares. Preciso deste alimento, tenho agora uma fome que me consome....
segunda-feira, abril 24, 2006
Parei para pensar e nem pensei. Tive essa idéia repentina, mas ela mesmo bloqueou o fluxo natural dos meus pensamentos. Só quando não quero pensar é que penso, e isso tem me tirado o sono. É, de certa forma, engraçado. Fico a imaginar o que poderia pensar e fico só com a imagem nublada do móvel abarrotado de livros a minha frente. Tem até um de capa verde que me chamou atenção. Dizem que a esperança é verde. Pois bem, vou ficar a esperar que esses pensamento cobiçados escorram por um duto ainda desconhecido. Quando chegarem, os escreverei. Meus cabelos estão caindo, e isso não é um pensamento, é uma constatação...
sábado, abril 01, 2006
Rios, risos e choro
Olho esse rio que corre em seu leito
E abre caminhos
Carrega os espinhos
Esconde defeitos.
Eu rio do frio
Rio dos seus lábios sorrindo
Náufrago homem
Nesse rio sem cor
Rio vazio onde nada mais cabe
Nele sucumbe o amor.
Eu rio dos tolos
Rio da graça
Rio tanto que às vezes dói
Rasos rios transbordantes
Densas águas conflitantes
Que carregam o barquinho de papel
Rio do seu destino frágil
Rio do lugar onde vai chegar
Rio um riso fingido
Pesa-me um choro contido
Enquanto o rio corre pro mar
Rios de mágoas
Castelos de areia
Gotas de sonho
Poço de lágrimas
Posso de lá gritar
Grito em silêncio do fundo do rio
Grito de onde ninguém pode escutar
Rio de mim quando rio
Rio ao ponto de chorar
Rio dos cacos quebrados
Que pelas águas do rio são sugados
Esse rio esconde mistérios
Rio de quem ousa desvendar
Rio de estrelas
Rio de dúvidas
Rio e águas também
Rio do meu próprio tombo
Depois no meu canto choro
E a dor não demora a passar
Ri o riso mais gostoso
Quando motivos não havia
Quando notei apenas ria
Sobre o rio calmo
Que co-ria.
E abre caminhos
Carrega os espinhos
Esconde defeitos.
Eu rio do frio
Rio dos seus lábios sorrindo
Náufrago homem
Nesse rio sem cor
Rio vazio onde nada mais cabe
Nele sucumbe o amor.
Eu rio dos tolos
Rio da graça
Rio tanto que às vezes dói
Rasos rios transbordantes
Densas águas conflitantes
Que carregam o barquinho de papel
Rio do seu destino frágil
Rio do lugar onde vai chegar
Rio um riso fingido
Pesa-me um choro contido
Enquanto o rio corre pro mar
Rios de mágoas
Castelos de areia
Gotas de sonho
Poço de lágrimas
Posso de lá gritar
Grito em silêncio do fundo do rio
Grito de onde ninguém pode escutar
Rio de mim quando rio
Rio ao ponto de chorar
Rio dos cacos quebrados
Que pelas águas do rio são sugados
Esse rio esconde mistérios
Rio de quem ousa desvendar
Rio de estrelas
Rio de dúvidas
Rio e águas também
Rio do meu próprio tombo
Depois no meu canto choro
E a dor não demora a passar
Ri o riso mais gostoso
Quando motivos não havia
Quando notei apenas ria
Sobre o rio calmo
Que co-ria.
quarta-feira, março 29, 2006
Pérola!!!
Já estava pronta pra ir dormir, quando derrepente minha vó soltou uma pérola, tive que vir postar aqui:
"Eu hein, bicho da Bahia é bode. E o vaqueiro é um gipe"
Alguém me ajude a interpretar
"Eu hein, bicho da Bahia é bode. E o vaqueiro é um gipe"
Alguém me ajude a interpretar
Transformação
Eu sei que cada dia
Qualquer coisa pode morrer
Qualquer coisa de belo pode nascer,
Eu posso apagar,
Jogar lembranças no poço do esquecimento
E escrever uma página nova na história
Eu sei que um dia,
Todo presente será memória.
Cada dia tudo morre
Pra algo possa nascer
Uma lágrima de tristeza cai
E um sorriso se abre no olhar
Eu posso cantar a melancolia
Que sutilmente nasce a alegria
Morre o homem velho
Morrem os desejos sem nexo
Nasce um novo coração
Morre a esperança
Nasce uma nova forma de acreditar
Cada dia,
Morre um pouco de mim,
Nasce tanto de mim em mim tantas horas
Morre-se e nasce-se um pouco a cada dia
Eu sei,
Toda morte é provisória
O nascimento sempre vem
É transformação
Eu sei que nada apenas morre
Eu sei que nenhuma morte é em vão.
Qualquer coisa pode morrer
Qualquer coisa de belo pode nascer,
Eu posso apagar,
Jogar lembranças no poço do esquecimento
E escrever uma página nova na história
Eu sei que um dia,
Todo presente será memória.
Cada dia tudo morre
Pra algo possa nascer
Uma lágrima de tristeza cai
E um sorriso se abre no olhar
Eu posso cantar a melancolia
Que sutilmente nasce a alegria
Morre o homem velho
Morrem os desejos sem nexo
Nasce um novo coração
Morre a esperança
Nasce uma nova forma de acreditar
Cada dia,
Morre um pouco de mim,
Nasce tanto de mim em mim tantas horas
Morre-se e nasce-se um pouco a cada dia
Eu sei,
Toda morte é provisória
O nascimento sempre vem
É transformação
Eu sei que nada apenas morre
Eu sei que nenhuma morte é em vão.
terça-feira, março 28, 2006
Impressão Digital

Estava observando o pescoço do moço de camisa listrada. Os pelos cresciam num movimento tal, que pareciam tomar forma de uma impressão digital. Derrepente, vi na minha face estampada a figura que acompanha a minha fotografia no RG. E fiz uma expressão de pavor por causa de um pensamento que me tomou: Seria eu imutável? Estaria eu mesma desenhada em cada parte de mim? Já me vi por horas fragmentada, cada parte de mim sendo um eu diferente que sou. Ja neguei a mim mesma. Ja menti sobre o meu ser, coisas que a minha digital não faz. Aquelas formas dançavam no pescoço do moço, possuindo cada parte exposta do seu corpo, e eu me desesperava por pensar que naquela mesma dança eu poderia começar a tomar forma de mim. Escondo-me, não toco em nada! Enquanto eu não descobrir, não poderei revelar esse eu que penso que sou.
segunda-feira, março 27, 2006
Olhos Verdes
A presença da minha vó aki em casa, tem me levado a experimentar a magia e a estranheza da velhice. Aí lembrei de algo que escrevi uma vez que minha mãe me pediu para pintar os seus olhos...
Olhos Verdes
Vi as marcas do tempo nos olhos da minha mãe
Vi a ausência de juventude
E senti medo do tempo passar
Mas havia vida,
Havia vida naqueles olhos mudos
E uma enorme história
O semblante toma forma da memória
Em cada traço da feição.
Senti medo das minhas mãos derrepente envelhecerem
E do encanto da mocidade se esvair
Senti medo das formas flácidas do tempo
Quando olhei aqueles olhos verdes a luzir.
Olhos Verdes
Vi as marcas do tempo nos olhos da minha mãe
Vi a ausência de juventude
E senti medo do tempo passar
Mas havia vida,
Havia vida naqueles olhos mudos
E uma enorme história
O semblante toma forma da memória
Em cada traço da feição.
Senti medo das minhas mãos derrepente envelhecerem
E do encanto da mocidade se esvair
Senti medo das formas flácidas do tempo
Quando olhei aqueles olhos verdes a luzir.
domingo, março 26, 2006
SOMA

Estou postando uns textos antigos, esse aí deve ter sido escrito em 2004, mas eu ando mais ou menos assim, tentando me encaixar em alguns limites estreitos...
Soma
Algumas doses de soma pra esquecer
O efeito produzido pela repressão dos meus impulsos
Que não têm outra saída a não ser transbordar
E a inundação é sentimento,
A inundação é paixão
A inundação é loucura até.
A consciência embriagada de significação
No intervalo de tempo entre o desejo e sua satisfação
Sufocada pela falta de ar
Pela falta de espaço
Da prisão esterilizada
Que a realidade criou.
É lá,
Nos seus limites estreitos
Que vagam meus pensamentos
Numa eternidade lunar
Tentando produzir a cegueira e a surdez
Deliberadamente procuradas
Na obscuridade quente e abafada da insatisfação.
Eureca!!!!!

Hoje tive uma idéia sensacional! Vou pendurar um peso na extremidade do meu sono para aumentar a força de campo gravitacional atuante sobre ele (tá foda, eu acordo por qualquer alfinete que cai no chão). Aproveitando este momento de gambiarras, vou providenciar uma lambida felina na minha memória pra que a aspereza da lingua arranhe a leveza e a maciez de algumas das minhas lembranças (lembranças boas que não se podem lembrar). Pronto! descobri a soluções do meus problemas. Um gato, uma pedra e um barbante...
sexta-feira, março 24, 2006
Drumond
Hoje fiquei com vontade de postar um texto de Drumond...
Comunhão
Todos os meus mortos estavm de pé, em circulo, eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silencio de suas roupas além da moda e de tecidos, roupas não anunciada e nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta, ficava parado, suspenso no sabão, objeto denso, tranquilo.
Notei um lugar vazio na roda.
Lentamente fui ocupá-lo.
Surgiram todos os rostos iluminados...
Comunhão
Todos os meus mortos estavm de pé, em circulo, eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silencio de suas roupas além da moda e de tecidos, roupas não anunciada e nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta, ficava parado, suspenso no sabão, objeto denso, tranquilo.
Notei um lugar vazio na roda.
Lentamente fui ocupá-lo.
Surgiram todos os rostos iluminados...
quinta-feira, março 23, 2006
A morte do ego

Ontem atirei no meu peito. Atirei-me num leito desconhecido, só pra sentir a estranheza da morte. Ouvi o estouro da bala e um silêncio profundo reinou. Eu sei que eu não estava mais lá. Senti meu peito desacelerar lentamente até parar de bater. Senti também o meu olho sangrar. Era frio. Meus dedos contraíram-se num gesto de dor. Eu não sabia o que fazer: viver, morrer, morrer, viver...Queria arrancar aquela bala do meu corpo e respirar o alívio. Vi todo meu sangue escapar de mim como um rio que transborda em dias de chuva. Eu vi toda a minha vida passar como um sopro. A minha história contraiu-se em um segundo. E aquele segundo parecia não passar. Depois de me dar conta do meu estado de inconsciência, senti uma imensa vontade de gritar. Mas ninguém estava lá. Só eu e o meu corpo ferido. Estendido ao chão, sem força, sem voz...Alguém precisava ouvir o que minha cabeça pensava e o meu corpo sofria. Pensei que ninguém jamais saberia. Mas aqui estou eu, a relatar o que me aconteceu. Só não sei o final da história. Não sei se o meu corpo morreu. Não sei se o meu eu viveu.
quarta-feira, março 22, 2006
Surdez...
Em função da perda auditiva da minha vovozinha, tenho sido ultimamente os seus ouvidos, além das suas muletas, é claro. Fico pensando nas diversas possibilidades que existem da gente se desconectar do mundo, e não ouvir me parece bastante intrigante. A gente fica impossibilitado de reagir aos ruídos das transformações que acontecem lá fora. Derrepente o mundo começa a desmoronar e a gente se quer se daria conta, não fosse a poeira das coisas desabadas. Algumas vezes desejei o sossego dos surdos, ou algum dipositivo qualquer que me tornasse alheia aos meus ruidos internos. Aqueles provocados pelas confusões, pelas transformações, pelos medos, pelos desejos....Ah, os desejos....tenho medo do que NIETSCHE tem me dito a respeito dos desejos....Mas vou me concentrar apenas nos meus desejos momentaneos de alienação auditiva. Pouco a pouco, ela (minha vó) está aprendendo a técnica da leitura labial, mas às vezes, por mais que ela tente fingir um entendimento, é nítido que a mensagem não foi compreendida, pois as respostas se resumem a um aceno de cabeça indicando um sim. Compreensivel, pois sim é uma resposta que se encaixa em quase todas as questões. As vezes, muitas vezes, a gente diz sim por estar sem saco de tentar entender bem o que está sendo questionado. Eu tenho dito muitos sins!! E não me perguntem porque, pois me parece bastante cansativo procurar entender. Semana passada, nostalgicamente, arrisquei uns sons de flauta, para sobrepor às ondas sonoras dos meus - peço licença para o neologimo- "insilenciosos pensamentos". Se essa surdez deliberadamente procurada der sinal de vida, vou imitar vovó, e sem pensar muito, com a cabeça direi "SIM"
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